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domingo, 24 de agosto de 2008

Definição de quem adoramos

Certamente que o aspecto mais importante no que se refere ao comportamento das pessoas tem a ver a quem dedicamos nossa adoração.
Analisando o livro de Daniel capítulo 5, podemos ver o que estava em jogo: a tomada dos utensílios da casa de Deus para utilização ilícita ou errada, a saber: usar para bebedeiras, bem como bendizer a deuses que não eram deuses (Deus só existe um).
No futuro, não muito distante, estaremos envolvidos com tal tipo de situação: a quem adorar ou a qual ordem acatar: se a dos homens ou a de Deus. Esse caminho já está sendo traçado e aguarda apenas a manifestação total do poder que se opõe a Deus, o Qual é Deus bendito, eterno e criador de tudo o que existe.
Uma outra análise pode ser feita a respeito desse capítulo.
Se os utensílios eram da casa de Deus, isso quer dizer que não devemos misturar o santo com o profano. O que pertence à casa de Deus não deve ser posto para atuação em local que Deus não compartilhe. Portanto, usar bancos ou qualquer ornamento da casa de Deus para festidade pagã, está fora da vontade divina. Quem assim determina (colocar utensílios da casa de Deus a favor de festidades idólatras) está afrontando a Deus sendo culpado de grave transgressão.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Dois Heróis da Idade Média - Parte III

A cidade de Praga encheu-se de tumulto. Uma classe numerosa denunciou Huss como a causa de todas as suas calamidades, e rogaram fosse ele entregue à vingança de Roma. Para acalmara a tempestade, o reformador retirou-se por algum tempo à sua aldeia natal. Escrevendo aos amigos que deixara em Praga, disse: “Se me retirei do meio de vós, foi para seguir o preceito e exemplo de Jesus Cristo, a fim de não dar lugar aos mal intencionados para atraírem sobre si a condenação eterna, e a fim de não ser para os piedosos causa de aflição e perseguição. Retirei-me também pelo receio de que os sacerdotes ímpios pudessem continuar por mais tempo a proibir a pregação da Palavra de Deus entre vós; mas não vos deixei para negar a verdade divina, pela qual, com o auxílio de Deus, estou disposto a morrer.” – Os Reformadores Antes da Reforma, de Bonnechose. Huss não cessou seus labores, mas viajou pelo território circunjacente, pregando a ávidas multidões. Destarte, as medidas a que o papa recorrera a fim de suprimir o Evangelho, estavam fazendo com que este largamente se estendesse. “Nada podemos contra a verdade, senão pela verdade.” II Coríntios 13:08.

O espírito de Huss nessa fase de sua carreira, parece ter certo cenário de doloroso conflito. Embora a igreja estivesse procurando fulminá-lo com seus raios, não havia ele renegado a autoridade dela. A igreja de Roma era ainda para ele a esposa de Cristo, e o papa o representante e vigário de Deus. O que Huss estava a guerrear era o abuso de autoridade, não o princípio em si mesmo. Isto acarretou terrível conflito entre as convicções de seu entendimento e os ditames de sua consciência. Se a autoridade era justa e infalível, como cria que fosse, como poderia achar-se obrigado a desobedecer-lhe? Obedece,r compreendia-o ele, significava pecar; mas, por que a obediência a uma igreja infalível levaria a tal situação? Era este o problema que não podia resolver; esta, a dúvida que o torturava sempre e sempre. A solução que mais justa se lhe afigurava, era que havia acontecido novamente, como já antes, nos dias do Salvador, que os sacerdotes da igreja se tinham tornado pessoas ímpias e estavam usando a autoridade lícita para fins ilícitos. Isto o levou a adotar para a sua própria orientação e para guia a quem pregava, a máxima de que os preceitos das Escrituras, comunicados por meio do entendimento devem reger a consciência; em outras palavras, de que Deus, falando na Bíblia, e não a igreja falando pelo sacerdócio, é o único guia infalível.” – Wylie.

Quando, depois de algum tempo, serenou a excitação em Praga, Huss voltou para a sua capela de Belém, a fim de continuar com maior zelo e ânimo a pregação da Palavra de Deus. Seus inimigos eram ativos e poderosos, mas a rainha e muito dos nobres eram seus amigos, e o povo em grande parte o apoiava. Comparando seus ensinos puros e elevados e sua vida santa com os dogmas degradantes dos romanistas e a avareza e devassidão que praticavam, muitos consideravam uma honra estar ao seu lado.

Até aqui Huss estivera só em seus trabalhos; agora, porém, se uniu na obra da reforma Jerônimo que, durante sua estada na Inglaterra, aceitara os ensinos de Wiclef. Daí em diante os dois estiveram ligados durante toda a vida, e na morte não deveriam ser separados. Gênio brilhante, eloqüência e saber – dotes que conquistaram o favor popular – possuía-os Jerônimo em alto grau; mas quanto às qualidades que constituem a verdadeira força de caráter, Huss era maior. Seu discernimento calmo servia de restrição ao espírito impulsivo de Jerônimo, que, com verdadeira humildade, se apercebia de seu valor e cedia aos seus conselhos. Sob o trabalho de ambos a Reforma estendeu-se mais rapidamente.

Deus permitiu que grande luz resplandecesse no espírito daqueles homens escolhidos, revelando-lhes muitos erros de Roma; mas eles não receberam toda a luz que devia ser dada ao mundo. Por meio destes Seus servos, Deus estava guiando o povo para fora das trevas do romanismo; havia, porém muitos e grandes obstáculos a serem por eles enfrentados, e Ele os guiou passo a passo, conforme o podiam suportar. Não estavam preparados para receber toda a luz de uma vez. Como o completo fulgor do sol ao meio dia para os que durante muito tempo permaneceram em trevas, fosse ela apresentada, tê-los-ia feito desviarem-se. Portanto Ele revelou aos dirigentes pouco a pouco, à medida que podia ser recebida pelo povo. De século em século, outros fiéis obreiros deveriam seguir-se para guiar o povo cada vez mais longe no caminho da Reforma.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Dois Heróis da Idade Média - Parte II

Um cidadão de Praga, Jerônimo, que depois se tornou intimamente ligado a Huss, trouxera consigo, ao voltar da Inglaterra, os escritos de Wiclef. A rainha da Inglaterra, que se convertera aos ensinos de Wiclef, era uma princesa boêmia, e por sua influência as obras do reformador foram também amplamente divulgadas em seu país natal. Estas obras lera-as Huss com interesse; cria que seu autor era cristão sincero e inclinava-se a considerar favoravelmente as reformas que advogava. Huss, conquanto não soubesse, entrara já em caminho que o levaria longe de Roma.

Por esse tempo chegaram a Praga dois estrangeiros da Inglaterra, homens de saber, que tinham recebido a luz, e haviam chegado para espalhá-la naquela terra distante. Começando com um ataque aberto à supremacia do papa, foram logo pelas autoridades levados a silenciar; mas, não estando dispostos a abandonar o seu propósito, recorreram a outras medidas. Sendo artistas, bem como pregadores, prosseguiram pondo em prática a sua habilidade. Em local franqueado ao público pintaram dois quadros. Um representava a entrada de Cristo em Jerusalém, “manso, e assentado sobre uma jumenta” (Mateus 21:5), e seguidos de Seus discípulos, descalços e com trajes gastos pelas viagens. O outro estampava uma procissão pontifical: o papa adornado com ricas vestes e tríplice coroa, montando cavalo, magnificamente adornado, precedido de trombeteiros, e seguido de cardeais e prelados em deslumbrante pompa.

Ali estava um sermão que prendeu a atenção de todas as classes. Multidões vieram contemplar os desenhos. Ninguém deixara de compreender a moral, e muitos ficaram profundamente impressionados pelo contraste entre a mansidão e a humildade de Cristo, o Mestre, e o orgulho e a arrogância do papa, seu servo professo. Houve grande comoção em Praga, e os estrangeiros, depois de algum tempo, acharam necessário partir, para sua própria segurança. Mas a lição que haviam ensinado não ficou esquecida. Os quadros causaram profunda impressão no espírito de Huss, levando-o a um estudo mais acurado da Bíblia e dos escritos de Wiclef. Embora ainda não estivesse preparado para aceitar todas as reformas defendidas por Wiclef, via mais claramente o verdadeiro caráter do papado, e com maior zelo denunciava o orgulho, a ambição e corrupção da hierarquia.

Da Boêmia a luz estendeu-se à Alemanha, pois perturbações havidas na universidade de Praga determinaram a retirada de centenas de estudantes alemães. Muitos deles tinham recebido de Huss seu primeiro conhecimento da Escritura Sagrada e, ao voltarem, espalharam e o Evangelho em sua pátria.

Notícias da obra em Praga foram levadas a Roma, e Huss foi logo chamado a comparecer perante o papa. Obedecer seria expor-se à morte certa. O rei e a rainha da Boêmia, a universidade, membros da nobreza e oficiais do governo, uniram-se a num apelo ao pontífice para que fosse permitido a Huss permanecer em Praga e responder a Roma por meio de delegação. Em vez de atender a este pedido, o papa procedeu ao processo de condenação de Huss, declarando então achar-se interditada a cidade de Praga.

Naquela época, esta sentença, quando quer que fosse pronunciada, despertava geral alarma. As cerimônias que a acompanhavam, eram de molde a encher de terror ao povo que considerava o papa como representante do próprio Deus, tendo as chaves do Céu e do inferno, e possuindo poder para invocar juízos temporários bem como espirituais. Acreditava-se que as portas do Céu se fechavam contra a região atingida pelo interdito; que, até que o papa fosse servido remover a excomunhão, os mortos eram excluídos das moradas da bem-aventurança. Como sinal desta terrível calamidade suspendiam-se todos os serviços religiosos. As igrejas estavam fechadas. Celebravam-se os casamentos no pátio da igreja. Os mortos, negando-se-lhes o sepultamento em terreno consagrado, eram sem os ritos fúnebres, inumados em fossos ou no campo. Assim, por meio de medidas que apelavam para a imaginação, Roma buscava dirigir a consciência dos homens.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Dois Heróis da Idade Média - Parte I

O Evangelho fora implantado na Boêmia já no século nono. A Bíblia estava traduzida, e o culto público era celebrado na língua do povo. Mas à medida que aumentava o poderio do papa, a Palavra de Deus se obscurecia. Gregório VII, que tomara a si o abater o orgulho dos reis, não tinha menos intenções de escravizar o povo, e de acordo com isto expediu uma bula proibindo que o culto público fosse dirigido na língua boêmia. O papa declarava ser “agradável ao Onipotente que seu culto fosse celebrado em língua desconhecida, e que muitos males e heresias haviam surgido por não se observar esta regra.” Wylie. Assim Roma decretava que a luz da Palavra de Deus se extinguisse e o povo fosse encerrado em trevas. O Céu havia promovido outros fatores para a preservação da igreja. Muitos dos valdenses e dos albigenses, pela perseguição expulsos de seus lares na França, e Itália, foram à Boêmia. Posto que não ousassem ensinar abertamente, zelosos trabalhavam em segredo. Assim se preservou a fé de século em século.

Antes dos dias de Huss, houve na Boêmia homens que se levantaram para condenar abertamente a corrupção da igreja e dissolução do povo. Seus trabalhos despertaram interesse que se estendeu largamente. Suscitaram-se os temores da hierarquia e iniciou-se a perseguição contra os discípulos do Evangelho. Compelidos a fazer seu culto nas florestas e montanhas, davam-lhes caça aos soldados, e muitos foram mortos. Depois de algum tempo se decretou que todos os que se afastassem do culto romano deviam ser queimados. Mas, enquanto os cristãos rendiam a vida, olhavam à frente para a vitória de sua causa. Um dos que “ensinavam que a salvação só se encontra pela fé no Salvador crucificado,” declarou ao morrer: “A fúria dos inimigos da verdade agora prevalece contra nós, mas não será para sempre; levantar-se-á um dentre o povo comum, sem espada nem autoridade, e contra ele não poderão prevalecer.” - Wylie. O tempo de Lutero estava ainda muito distante; mas já se erguia alguém , cujo testemunho contra Roma abalaria as nações.

João Huss era de humilde nascimento e cedo ficou órfão pela morte do pai. Sua piedosa mãe, considerando a educação e o temor de Deus como a mais valiosa das posses, procurou assegurar esta herança para o filho. Huss estudou na escola da província, passando depois para a universidade de Praga, onde teve admissão gratuita como estudante pobre. Foi acompanhado na viagem por sua mãe; viúva e pobre, não possuía riquezas e honras mundanas para conferir ao filho; mas, aproximando-se eles da grande cidade, ajoelhou-se ela ao lado do jovem sem pai, e invocou-lhe a bênção do Pai celestial. Pouco imaginara aquela mãe como sua oração seria atendida.

Na universidade Huss se distinguiu pela sua incansável aplicação e rápidos progressos, enquanto a vida irrepreensível e modos afáveis e simpáticos lhe conquistaram estima geral. Era sincero adepto da igreja de Roma, e fervorosamente buscava as bênçãos espirituais que ela professava conferir. Na ocasião de um jubileu, foi à confissão, pagou as últimas poucas moedas de seus minguados recursos, e tomou parte nas procissões, a fim de participar da absolvição prometida. Depois de completar o curso colegial, entrou para o sacerdócio e, atingindo rapidamente a eminência, foi logo chamado à corte do rei. Tornou-se professor e mais tarde reitor da universidade em que recebera educação. Em poucos anos o humilde estudante, que de favor se educara, tornou-se o orgulho de seu país e seu nome teve fama em toda a Europa.

Foi, porém, em outro campo que Huss começou a obra da Reforma. Vários anos após haver recebido a ordenação sacerdotal, foi nomeado pregador da capela de Belém. O fundador desta capela defendera como assunto de grande importância, a pregação das Escrituras na língua do povo. Apesar da oposição de Roma a esta prática, ela não se interrompeu completamente na Boêmia. Havia, porém, grande ignorância das Escrituras, e os piores vícios prevaleciam entre o povo de todas as classes. Estes males Huss denunciou largamente, apelando para a Palavra de Deus a fim de encarecer os princípios da verdade e pureza por ele pregados.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Arautos de uma era melhor - Parte VIII

Wiclef foi um dos maiores reformadores. Na amplidão de seu intelecto, clareza de pensamentos, firmeza em manter a verdade e ousadia para defendê-la, por poucos que após ele vieram foi igualado. Pureza de vida, incansável diligência no estudo e no trabalho, incorruptível integridade, amor e fidelidade cristã no ministério caracterizaram o primeiro dos reformadores. E isto, apesar das trevas intelectuais e corrupção moral da época de que ele emergiu.

O caráter de Wiclef é testemunho do poder educador e transformador das Sagradas Escrituras. Foram estas que dele fizeram o que foi. O esforço para aprender as grandes verdades da revelação, comunica frescura e vigor a todas as faculdades. Expande a mente, aguça a percepção, amadurece o juízo. O estudo da Bíblia enobrece a todo o pensamento, sentimento e aspiração, como nenhum outro estudo o pode fazer. Dá estabilidade de propósitos, paciência, coragem e fortaleza; aperfeiçoa o caráter e santifica a alma. O esquadrinhar fervoroso e reverente das Escrituras, pondo o espírito do estudante em contato direto com a mente infinita, daria ao mundo homens de intelecto mais forte e mais ativo, bem como de princípios mais nobres, do que os que já existiram como resultado do mais hábil ensino que proporciona a filosofia humana. “A exposição das Tuas palavras dá luz” diz o salmista; “dá entendimento aos símplices.” Salmo 119:130.

As doutrinas, por Wiclef ensinadas, continuaram durante algum tempo a espalhar-se; seus seguidores, conhecidos como wiclefitas e lolardos, não somente encheram a Inglaterra, mas a espalharem-se em outros países, levando o conhecimento do Evangelho. Agora que seu guia fora tomado dentre os vivos, os pregadores trabalhavam com zelo maior do que antes, e multidões se congregavam para ouvi-los. Alguns da nobreza e até a esposa do rei se encontravam entre os conversos. Em muitos lugares houve assinalada reforma nos costumes do povo, e os símbolos do romanismo foram removidos das igrejas. Logo, porém, a impiedosa tempestade da perseguição irrompeu sobre os que haviam ousado aceitar a Escritura Sagrada como guia. Os monarcas ingleses, ávidos de aumentar seu poder mediante o apoio de Roma, não hesitaram em sacrificar os reformadores. Pela primeira vez na história da Inglaterra a fogueira foi decretada contra os discípulos do Evangelho. Martírios sucederam a martírios. Os defensores da verdade, proscritos e torturados, podiam tão somente elevar seus clamores ao ouvido do Senhor dos exércitos. Perseguidos como inimigos da igreja e traidores do reino, continuaram a pregar em lugares secretos, encontrando abrigo o melhor que podiam nos humildes lares dos pobres, e muitas vezes refugiando-se mesmo em brenhas e cavernas.

Apesar da fúria da perseguição, durante séculos continuou a ser proferido um protesto calmo, devoto, fervoroso, paciente, contra as dominantes corrupções da fé religiosa. Os crentes daqueles primitivos tempos tinham apenas conhecimento parcial da verdade, mas haviam aprendido a amar e obedecer à Palavra de Deus, e pacientemente sofriam por sua causa. Como os discípulos dos dias apostólicos, muitos sacrificavam suas posses deste mundo pela causa de Cristo. Aqueles a quem era permitido permanecer em casa, abrigavam alegremente os irmãos banidos; e, quando também eles eram expulsos, animosamente aceitavam a sorte dos proscritos. Milhares, é verdade, aterrorizados pela fúria dos perseguidores, compravam a liberdade com sacrifício da fé e saíam da prisão com roupas dos penitentes, a fim de publicar a sua abjuração. Mas não foi pequeno o número – e entre este haviam homens de nascimento nobre como humildes e obscuros – dos que deram humilde testemunho da verdade nos cubículos dos cárceres, nas “Torres dos Lolardos,” e em meio de tortura e chamas, regozijando-se de que tivessem sido considerados dignos de conhecer a “comunicação de Suas aflições.”

Os romanistas não haviam conseguido executar a sua vontade em relação a Wiclef durante a vida deste, e seu ódio não se satisfez enquanto o corpo do reformador repousasse em sossego na sepultura. Por decreto do concílio de Constança, mais de quarenta anos depois de sua morte, seus ossos foram exumados e publicamente queimados, e as cinzas lançadas num riacho vizinho. “Esse riacho” diz antigo escritor, “levou suas cinzas para o Avon, o Avon para o Severn, o Severn para o pequenos mares, e estes para o grande oceano. E assim as doutrinas de Wiclef são o emblema de sua doutrina, que hoje está espalhado pelo mundo inteiro.” – História Eclesiástica da Bretanha, de T. Fuller. Pouco imaginaram os inimigos a significação de seu ato perverso.

Foi mediante os escritos de Wiclef que João Huss da Boêmia, foi levado a renunciar a muitos erros do romanismo e entrar na obra da Reforma. E assim é que nesse dois países tão grandemente separados, foi lançada a semente da verdade. Da Boêmia a obra estendeu-se para outras terras. O espírito dos homens foi dirigido para a Palavra de Deus, havia tanto tempo esquecida. A mão divina estava a preparar o caminho para a Grande Reforma.

domingo, 27 de janeiro de 2008

Arautos de uma era melhor - Parte VII

“Nenhum homem fiel seguir quer ao próprio papa, quer a qualquer dos santos, a não nos pontos em que seguirem ao Senhor Jesus Cristo; pois Pedro e os filhos de Zebedeu desejando honras mundanas, contrárias ao seguimento dos passos de Cristo, erraram, e, portanto, nestes erros não devem ser seguidos.”

“O papa deve deixar ao poder secular todo o domínio e poder temporal, e neste sentido exortar e persuadir eficazmente todo o clero; pois assim fez Cristo, e especialmente por seus apóstolos. Por conseguinte se errei em qualquer destes pontos, submeter-me-ei humildemente à correção, mesmo pela morte, se assim for necessário; e se eu pudesse agir segundo minha e vontade ou desejo, certamente me apresentaria em pessoa perante o bispo de Roma; mas o Senhor determinou o contrário, e ensinou-me a obedecer antes a Deus do que aos homens.”

Finalizando disse: “Oremos a nosso Deus para que Ele de tal maneira influencie nosso papa Urbano VI, conforme já começou a fazer, que juntamente com clero possa seguir o Senhor Jesus Cristo na vida e nos costumes, e com eficiência ensinar o povo, e que eles de tal maneira, fielmente os sigam nisso.” – Atos e Monumentos, de Foxe.

Assim o Wiclef apresentou ao papa e aos cardais a mansidão e humildade de Cristo, mostrando não somente a eles mesmos, mas a toda a cristandade, o contraste entre eles e o Mestre, a quem professavam representar.

Wiclef esperava plenamente que sua vida seria o preço de sua fidelidade. O rei, o papa e os bispos estavam unidos para levá-lo à ruína, e parecia certo que, quando muito, em poucos meses o levariam à fogueira. Mas sua coragem não se abalou. “Por que falais em procurar longe a coroa do martírio?” dizia. “Pregai o Evangelho de Cristo aos altivos prelados e o martírio não vos faltará. Que! Viveria eu e estaria silencioso? ... Nunca! Venha o golpe eu o estou aguardando.” – D’Aubigné.

Mas Deus, em sua providência escudou Seu servo. O homem que durante toda a vida permanecera ousadamente na defesa da verdade, diariamente em perigo de vida, não deveria cair vítima do ódio de seus adversários. Wiclef nunca procurara escudar-se a si mesmo, mas o Senhor lhe fora o Protetor; e agora, quando seus inimigos julgavam segura a presa, a mão de Deus o removeu para além de seu alcance. Em sua igreja em Lutterworth, na ocasião em que ia ministrar a comunhão, caiu atacado de paralisia, e em pouco tempo rendeu a vida.

Deus designara a Wiclef a sua obra. Pusera-lhe na boca a Palavra da verdade e dispusera uma guarda a seu redor para que esta palavra pudesse ir ao povo. A vida fora-lhe protegida e seus trabalhos se prolongaram, até ser lançado o fundamento para a grande obra da Reforma.

Wiclef saíra das trevas da Idade Média. Ninguém havia que tenha vivido antes dele, por meio de cuja obra pudesse modelar seu sistema de reforma. Suscitado como João Batista para cumprir uma missão especial, foi ele um arauto de uma nova era. Contudo, no sistema de verdade que apresentava, havia uma unidade e perfeição que os reformadores que o seguiram não excederam e que alguns não atingiram, mesmo cem anos mais tarde. Tão amplo e profundo foi o fundamento, tão firme e verdadeiro o arcabouço, que não foi necessário ser reconstruído pelos que depois dele vieram.

O grande movimento inaugurado por Wiclef, o qual deveria libertar a consciência e o intelecto e deixar livres as nações, durante tanto tempo jungidas ao carro triunfal de Roma, teve sua fonte na Escritura Sagrada. Ali se encontrava a origem da corrente da bem-aventurança, que, como a água da vida, tem manado gerações desde o século XVI. Wiclef aceitava as Sagradas Escrituras com implícita fé, como a inspirada revelação da vontade de Deus, como suficiente regra de fé e prática. Fora educado a considerar a Igreja de Roma como autoridade divina infalível, e aceitar com indiscutível reverência os ensinos e costumes estabelecidos havia um milênio; mas de tudo isto se desviou para ouvir a santa Palavra de Deus. Esta era a autoridade que ele insistia com o povo para que reconhecesse. Em vez da igreja falando pelo papa, declarou ser a única verdadeira autoridade a voz de Deus falando por Sua Palavra. E não somente ensinava que a Bíblia é a perfeita revelação da vontade de Deus, mas que o Espírito Santo é o seu único intérprete, e que todo homem, pelo estudo dos seus ensinos, deve aprender por si próprio o dever. Desta maneira fazia volver o espírito, do papa e da igreja de Roma, para a Palavra de Deus.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Arautos de uma era melhor - Parte VI

Novamente os chefes papais conspiraram para silenciar a voz do reformador. Perante três tribunais foi ele sucessivamente chamado a juízo, mas sem proveito. Primeiramente um sínodo de bispos declarou heréticos os seus escritos e, ganhado o jovem Ricardo II para o seu lado obtiveram um decreto real sentenciando à prisão os que professassem as doutrinas condenadas.

Wiclef apelou do sínodo para o Parlamento; destemidamente acusou a hierarquia perante o conselho nacional e pediu uma reforma dos enormes abusos sancionados pela igreja. Com poder convincente, descreveu as usurpações e corrupções da sé papal. Seus inimigos ficaram confusos. Os que eram amigos de Wiclef e o apoiavam tinham sido obrigados a ceder, e houvera a confiante expectativa de que o próprio reformador, em sua avançada idade, só e sem amigos, curvar-se-ia perante a autoridade combinada da coroa e da tiara. Mas em vez disso, os adeptos de Roma viram-se derrotados. O Parlamento despertado pelos estimuladores apelos de Wiclef, repeliu o edito perseguidor e o reformador foi posto novamente em liberdade.

Pela terceira vez foi ele chamado a julgamento, e agora perante o mais elevado tribunal eclesiástico do reino. Ali não se mostraria favor algum para com a heresia. Ali, finalmente, Roma triunfaria e a obra do reformador seria detida. Assim pensavam os romanistas. Se tão-somente cumprissem o seu propósito, Wiclef seria obrigado a abjurar as suas doutrinas, ou sairia da corte diretamente para as chamas.

Wiclef, porém, não se retratou; não usou de dissimulação. Destemidamente sustentou os seus ensinos e repeliu as acusações de seus perseguidores. Perdendo de vista a si próprio, sua posição e o momento, citou os ouvintes perante o tribunal divino, e pesou seus sofismas e enganos na balança da verdade eterna. Sentiu-se o poder do Espírito Santo na sala do concílio. Os ouvintes ficaram como que fascinados. Pareciam não ter forças para deixar o local. Como setas da aljava do Senhor, as palavras do reformador penetrava-lhes a alma. A acusação de heresia que contra ele haviam formulado, com poder convincente reverteu contra eles mesmos. Por que, perguntava ele, ousavam espalhar seus erros? Por amor do lucro, para da graça de Deus fazerem mercadoria?

“Com quem,” disse finalmente, “julgais estar a contender? Com um ancião às bordas da sepultura? Não! Com a verdade – verdade que é mais forte do que vós, e vos vencerá.” – Wylie. Assim dizendo, retirou-se da assembléia e nenhum dos seus adversários tentou impedi-lo.

A obra de Wiclef estava quase terminada; a bandeira da verdade que durante tanto empunhara, logo lhe deveria cair da mão; mas, uma vez mais, deveria ele dar testemunho do Evangelho. A verdade deveria ser proclamada do próprio reduto do reino do erro. Wiclef foi chamado perante o tribunal papal em Roma, o qual tantas vezes derramara o sangue dos santos. Não ignorava o perigo que o ameaçava; contudo, teria atendido ao chamado se um ataque de paralisia lhe não houvesse tornado impossível efetuar a viagem. Mas, se bem que sua voz não devesse ser ouvida em Roma, poderia falar por carta, e isto se decidiu a fazer. De sua reitoria o reformador escreveu ao papa uma carta que, conquanto respeitosa nas expressões e cristã no espírito, era incisiva censura à pompa e orgulho da sé papal.

“Em verdade me regozijo,” disse, “por manifestar e declarar a todo homem a fé que mantenho, e especialmente ao bispo de Roma, o qual, como suponho ser íntegro e verdadeiro, de muita boa vontade confirmará minha dita fé, ou, se ela é errônea, corrigi-la-á.

“Em primeiro lugar, creio que o Evangelho de Cristo é o corpo todo da lei de Deus. ... Declaro e sustento que o bispo de Roma, desde que se considera o vigário de Cristo aqui na Terra, está obrigado, mais do que todos os outros homens, à lei do Evangelho. Pois a grandeza entre os discípulos de Cristo não consistia na dignidade e honras mundanas, mas em seguir rigorosamente, e de perto, a Cristo e suas maneiras. ... Jesus, durante o tempo de Sua peregrinação na Terra foi homem paupérrimo, desdenhando e lançando de Si todo o domínio e honra mundanos.”